sábado, 5 de setembro de 2009

Mc Máfia

O livro McMáfia, de Misha Glenny é uma exelente leitura. Muito interessante a maneira como aborda o assunto. Não tem nada de sensacionalismo, nada para colocar sua opinião a favor ou contra o crime organizado. Sua opinião é formada a medida em que a leitura flui.
Aborda o crime desde 1989, com a queda do comunismo no leste europeu até nossos dias. São variadas formas de crime. O contrabando, tráfico de tudo o que possa imaginar. E o pior de tudo: os governos do mundo inteiro estão cientes de tudo! Não há mais como esconder; na verdade nunca houve, uma vez que a propina sempre rolou solta...
A venda de armas dos extintos exércitos comunistas; o tráfico de mulheres para a prostituição; tráfico de mão-de-obra barato - pessoas traficadas para trabalhar; tráfico de tudo o que se possa imaginar! As rotas para o contrabando. As fábricas clandestinas de cigarros, produtos eletrônicos.
O crime pela internet. O crime fiscal. As falcatruas por trás de negociações financeiras.
Fiquei impressionado com tanta forma de crime organizado. E em todos os lugares do mundo! Para todos que gostam da exuberante "beleza" de Dubai uma ligeira informação: a grana que entra lá vem do crime do mundo inteiro. Lá em Dubai eles não perguntam de onde vem os milhões para o investimento local. E assim também é na China de hoje!
Acho que ninguém e nenhum lugar do mundo escapa ao crime organizado!

Vale muito ler este livro!


Algumas frases que separei.

“O crime organizado e a corrupção prosperam em regiões e países em que a confiança popular nas instituições é frágil.” (p.99)

“Mas o que a fraude demonstra, sem sombra de dúvida, é que, quando um sindicato do crime convence um Estado poderoso a concordar ou cooperar com suas negociatas, tem em mãos a senha mágica para a gruta dos tesouros de Aladim. Porque não existe organização criminosa mais bem-sucedida do que a que conta com o apoio estatal.” (p. 107)

Esta fala é de um empresário em Xangai, nos dias de hoje...
"'Ninguém fica rico jogando 100% limpo', continuou ele. 'Eu não sou 100% limpo e ninguém é. Se fizéssemos tudo como manda o figurino, jmais conseguiríamos nada.'" (p.377)

***
Notei inúmeras falhas textuais ao longo do livro. Não marquei todas, e também não pretendo aqui expor as falhas, mas não posso deixar passar. Pode ser que a editora não dê tempo suficiente aos revisores e a tradutora de trabalhar com a devida calma para fazer o trabalho; aposto que o prazo é curto, e isso atrapalha o trabalho.
Fora isso é um ótimo livro e uma leitura agradável!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Leite derramado

O senhor Assumpção conta a história de sua vida num leito de morte.
Legal na obra de Chico é que não é a história de sua vida em terceira pessoa. A criatividade deste artista é muito interessante, a maneira como conta sobre seu país. Daqui a um tempo aparece alguém com um trabalho acadêmico assim: Leite Derramado & Raízes do Brasil: os livros! Do jeito que os caras são...

Separei um pequeno trecho.
"Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, deve ser logo oferecido a mulher como uma rosa."(61-2)

Durante a leitura fiquei pensando em Capitu, a eterna dúvida sobre a face da criança, os maridos trocados, essas coisas...

segunda-feira, 15 de junho de 2009

A Grande Arte

Fiz uma releitura de A Grande Arte.
Em princício não sabia por onde caminhar minhas pesquisas sobre o fato de Mandrake ser ou não um herói literário. Os críticos e professores universitários não respondem a minha pergunta, se é ou não; se pode ou não ser um herói.
Alguns indícios me apontam que pode sim. Muitas coisas dentro da obra me apontam para levar em frente esta minha idéia.
Este livro tem algumas características que o diferenciam do outro romance de Mandrake. Mas isso não pode ser levado em conta para uma pesquisa, já que não há dois contos iguais de Rubem Fonseca, imagina então romaces...
Neste, os detalhes aparecem mais. Existe uma maior participação de Raul e Wexler, e isso é importante para a questão do herói.
Fora isso foi uma leitura muito boa, como sempre. Pude perceber outras coisas dentro do texto, na estrutura do romance; essas coisas mais ligadas a técnica.
E por fora disso fiz uma leitura muito deliciosa. E isso é mais importe e melhor que uma leitura técnica.

sábado, 9 de maio de 2009

Elogio da mentira

Neste livro de Patrícia Melo o que vale é a mentira, o plágio. Uma forma nova, uma abordagem diferente. Muito interessante este livro. A leitura flui. Não é preso em detalhes. Na verdade, quem cria os detalhes são os leitores. Este diálogo entre leitor e autora é muito interessante e rico.
A construção das personagens, neste livro, aparece pronta. Não nos damos conta, mas quando percebemos, estamos com o personagem pronto em nossa cabeça. E no capítulo seguinte um novo item para incluir, e assim por diante.
A cada sinopse uma surpresa. A cada revelação uma descoberta. Afinal, quem matou quem? Quem sente remorso?, quem não sente? A vida é realmente baseada nessas mentiras editoriais?
A verdade tem espaço?

Literatura brasileira - modos de usar

Livro de Luis Augusto Fischer que aborda aspectos da história da nossa literatura. Interessantes abordagens. Nada presa ao convencional dos livros didáticos.
Curiosidades históricas, autores importantes e outros não muito vistos pelas Academias com boa representatividade e qualidade literárias aparecem com o destaque merecido.
Entre outras, separo um destaque ao Simbolismo. Aqui, o Simbolismo é abordado como uma forma grande na literatura, e não com um pequeno espaço, como é dado nos livros didáticos. O valor desta "escola" é reconhecido.
Para quem gosta de Literatura é uma boa leitura. Vale cada palavra!

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Dossiê Drummond

Para quem gosta da poesia de Carlos Drummond de Andrade este livro é um achado! Muito interessante a maneira como nos é apresentado o poeta pelo autor, Geneton Moares Neto. Uma biografia escrita por amigos, parentes, não-tão-amigos, pela namorada "secreta" - e em especial esta parte ficou fora de sério, Geneton manteve um respeito, uma privacidade.

O livro inicia com uma entrevista muito grande com CDA. E aí a conversa se estende por assuntos diversos em que o poeta confia no jornalista e solta o verbo. Uma coisa que gostei muito, e que comentei com amigos durante a leitura, é que entre as respostas há poesias ilustrando, já que falam do assunto. Foi uma sacada ótima!

Aí vem os depoimentos. Cada palavra amiga! Muitas não são tão amigas, mas não importa. Os depoimentos falam sobre Carlos em vários aspectos: pai, amigo, poeta, funcionário público exemplar, avô, homem amoroso, responsável, brincalhão, conversador, piadista - enfim, não são só sete faces.

A parte em que fala sobre a doença da filha, Maria Julieta, e sua própria doença é de arrepiar. Não quero me estender a esta parte - quem sabe uma outra hora...

O livro encerra com uma conversa entre o poeta e sua musa gravado por eles, no apartamento dela. Muito informal os dois conversam numa boa sobre vários assuntos. São apresentados "poeminhas de ocasião" feito para sua amada. Fora de sério, não imaginava Drummond assim...

Este livro é bom para saber sobre o poeta e homem CDA. Respeitado como poeta nacionalmente, respeitado como amigo. Não é obra só para especialistas - claro que para estes é uma feijoada completa. Uma curiosidade para os jovens: o poema "No meio do caminho" foi muito esculhambado, mal tratado, recebeu inúmeras críticas negativas durante muitos e muitos anos. Eu não sabia disso. Na minha época - o poeta já havia morrido - ovacionavam este poema sem falar nada disso, e ainda diziam ter um traço do Modernismo de 1922 de SP.

Geneton fez um bem à nação com este livro!

(Nada melhor pra encerrar que um poema extraído do livro Amar se aprende amando)


O AMOR ANTIGO

O amor antigo vive de si mesmo,

não de cultivo alheio ou de presença.

Nada exige nem pede. Nada espera,

mas do destino vão nega a sentença.


O amor antigo tem raízes fundas,

feitas de sofrimento e de beleza.

Por aquelas mergulha no infinito,

e por estas suplanta a beleza.


Se em toda parte o amor desmorona

aquilo que foi grande e deslumbrante,

o antigo amor, porém nunca fenece

e a cada dia surge mais amante.


Mais ardente, mas pobre de esperança.

Mais triste? Não. Ele venceu a dor,

e resplandece no seu canto obscuro,

tanto mais velho quanto mais amor.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

O Mundo é Bárbaro - e o que nós temos a ver com isso

Luis Fernando Verissimo, em seu mais recente livro, trata questões atuais com seriedade, ironia, e de certa forma, um ceticismo peculiar. Elogiar Verissimo torna-se um lugar comum, utilizando determinados adjetivos.

Cronista de primeira linha, Verissimo escreve sobre a hipocrisia da elite brasileira sem meio-termo. Não poupa adjetivos para falar sobre o racismo, no Brasil e no mundo. A China como grande potência - de quê? - pergunta o cronista. Um elevadíssimo índice de marginalidade econômica por lá, muitos vivem na miséria escancarada enquanto meia dúzia exportam e ganham dinheiro. Da esquerda à direita, o que muda?

O Mundo é Bárbaro - e o que nós temos a ver com isso, apresenta um escritor ciente do seu espaço, como pessoa, como cronista. Interessante como um cronista exerce lugar no mundo; enquanto um poeta parece deslocado - pelo menos é o que tenho achado, de acordo com o mundo em que vivo - ou vivemos? O livro é estrategicamente divido em partes com assuntos pertinentes, só que no geral todos os assuntos tratados estão dentro do nosso cotidiano.

Muitos perguntam o que seria do Brasil se fôssemos colonizados por holandeses, franceses, e não pelos portugueses. Parece que não mudaria muito, já que hoje a moda é a mesma aqui em BH e ali em NY.

Dica: alguém pode se propor a estudar a(s) técnica(s) utilizada(s) pelo autor para chamar a atenção do leitor de como algo que aparentemente não está ligado a nós e que na verdade está - e como o autor prende o leitor no texto e o leva a reflexões.
E também: onde há uma distância entre o cronista de humor e o cronista irônico; quais assuntos merecem tratamentos diferenciados.